A viagem de Ulisses
sexta-feira, 2 de janeiro de 2026
Reveillon
Mais uma festa que passou sem quem a gente ama. É tão contraditória a ideia da festa e as ausências. Festa era para estar junto.
A gente sabe que não pode ter mais aquela presença, mas ao mesmo tempo sente como se estivesse com a gente, na gente.
Tem horas que a lágrima escapa, um transbordo de sentimento de dentro para fora. É a materialidade que preenche a falta.
E a cada ano, essas ausências são maiores. Envelhecer, de certo modo, é sentir as faltas.
quinta-feira, 18 de dezembro de 2025
Conto de Natal
Com bolas de vidro soprado, frágeis e coloridas, enchíamos o pinheiro (de verdade).
Eram caleidoscópicas esculturas brilhantes, algumas pintadas, outras em formatos que faziam cosquinhas nos olhos da molecada. Papais Noeis, estrelinhas, algumas tinham até figuras de anjos (um luxo!) as quais nem chegávamos perto depois de penduradas, porque qualquer ventinho, quebravam.
E ficavam ali, aninhadas entre as folhas pontiagudas da árvore e os flocos nevados falsos de algodão que afinal, não derretiam nos trópicos.
O Natal de antigamente era inocente e naïve. Ou talvez fossemos nós, nossos olhos infantis que viam essas maravilhas.
Fazíamos o presépio como faria um diretor de arte montando a cena de um colossal. Decidíamos as posições dos atores, a cenografia, montávamos e remontávamos tudo. Eu gostava muito da figura do bebê e queria que estivesse lá desde o começo, embora, em princípio, só entraria no cenário no dia 25. Para mim, sempre foi uma falha no “script”.
Da cozinha, nos dias que o precediam, vinham promessas cheirosas de guloseimas únicas. De fato, não eram coisas disponíveis em outras datas. Natal cheirava a rabanadas, pudim de pão com frutas cristalizadas e doces de ovos. E as carnes, colocadas no “vinha d’alhos” (como dizia minha avó) perfumava de ervas.
Éramos excluídos da ceia. Crianças dormiam cedo. A comilança era no almoço. Esperávamos a manhã do dia 25 ansiosamente.
Minha mãe fazia umas caixas decorativas falsas para colocar debaixo da árvore durante o mês de dezembro. Havia uma vermelha brilhante com um boneco de neve em relevo. Eu desejava que fosse um presente de verdade de tão bonita. Geralmente, o presente de verdade não vinha em pacotes tão bonitos. Talvez houvesse uma moral nisso que eu não entendia.
O Natal de antigamente era diferente. Menos quantidade, mesmo porque a disponibilidade das coisas era limitada. Vivíamos num mundo com horizontes até onde o olhar alcançava. As coisas levavam seu tempo para acontecer.
Mas, pensando nisso, acho que a maior mudança foi na natureza da festa. Da fé para o consumo. Embora ao constatar no que a fé se tornou, talvez o problema nem se ponha.
segunda-feira, 17 de novembro de 2025
Inspiração
Ontem você me disse que queria ser como eu.
Ouvir isso me fez entender que eu fiz o meu papel. Inspirar alguém é uma das maiores responsabilidades da vida. Isso porque somos falhos, imperfeitos e a inspiração pressupõe a projeção do ideal. Eu não sou infalível, só quis ser para você a melhor versão mim.
Obrigada, minha filha. Sem você, eu já teria desistido. Você é quem dá sentido à minha vida.
Te amo, Bea! Obrigada por me dizer isso. ♥
quarta-feira, 5 de novembro de 2025
sexta-feira, 10 de outubro de 2025
Testamento para Bea
Quando eu não for nada
e só restarem de mim essas palavras
saiba que você foi para mim
desde o seu primeiro minuto
o amor absoluto,
a minha companheirinha,
a razão por ter existido.
Seja feliz
por mim,
pela parte de mim que seguirá em você.
Quando eu não for mais nada,
talvez nem uma carcaça vazia,
seja para mim a vida.
Em você reside o futuro.
Saiba que você cumpriu seu destino inscrito no
seu nome.
Eu fui feliz por ser sua mãe.
(com todo o amor, para Beatrice)
sábado, 6 de setembro de 2025
Reginaldo
acabo de saber que você se enforcou
me sinto triste e impotente
pensando se teria algo que eu poderia ter feito para evitar mais essa vez
apenas essa vez
só essa vez
quarta-feira, 3 de setembro de 2025
Três tankas brasileiros e uma aquarela ou Na praça do DL
Pessoas passam
distraídas sem notar
no chão da praça
a folha caramelo
pousar sobre as formigas.
No meu discurso
meu ego que diz ego
multiplica-se
no eco de outras vozes
inscritas na memória.
Só na Linguagem
que coloca no mundo
meu pensamento
concretizo a existência.
O resto é congectura.
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