quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Aura

A cabeça é como uma caverna onde os sons ecoam.
Meus pés pesam toneladas.
Sinto náusea e minhas entranhas falam uma língua estrangeira.
A desilusão cronificada, a desesperança diuturna e pontual.

Flutuo numa realidade suspensa
onde a indiferença contrasta com a gravidade
freando o tempo.
Minha pele não me serve mais e respirar
é uma façanha.
A avalanche de ideias impede qualquer ação.

Pulso, pulso, pulso...
Sinto a tensão crescente, subindo como lava até a explosão final.

Depois silêncio e vazio.









segunda-feira, 20 de março de 2017

Burnout

Estranho sentimento de perceber que o que você ama, o que você faz, o que você é, lhe causa dor e doença. 
Estranho e desconfortável. 
Especialmente quando o tempo já não é mais um aliado e percebe-se a urgência de sobreviver.
A dor e a tristeza vão engolindo devagar os dias. E a luz vai se afastando no final do túnel.
Paro porque não consigo mais seguir em frente. 
Ao menos tenho ainda a lucidez de perceber o limite.
Mesmo que incomode, mesmo que o sentimento seja presente e avassalador. 
Entrego os pontos, jogo a toalha e escapo para meu refúgio interior.  

Mergulho em mim esperando encontrar um refrigério.

domingo, 1 de janeiro de 2017

Notas de um novo ano sem título

A luz invocando memórias

Hoje cedo, pela janela da cozinha, a luz me trouxe a lembrança do mar de uma infância longuínqua, os cheiros do sal e do ozônio, a lembrança do baldinho, da pá e do toque da areia. O maiôzinho vermelho dos meus cinco anos.
E pela primeira vez me dei conta de como somente a luz (além dos cheiros e dos sons, além dos perfumes e sabores) era capaz de invocar com força lembranças tão vívidas.
Surpresa e maravilhada, foi um momento suspenso no tempo.


O desejo de viajar.

Fiquei pensando no que mais me encanta no fato de viajar. Pensei que talvez fosse a novidade, a estranheza, o estímulo de sair do habitual e se lançar na busca do desconhecido. Mas na verdade, os novos horizontes, novos sabores, novos comportamentos acabam mostrando que a realidade é bem outra.
Quando viajo me aproximo do estranho, me abro e ao mesmo tempo, me aproximo de mim mesma. Reconheço melhor minha imagem, meu eu, minhas raízes enquanto me aproprio deste novo espaço, destes estranhos e seus costumes.
É isto que me fascina. O completamente novo que reconheço em mim como meu, parte da minha identidade. Apesar de nossas aparentes diferenças somos humanos.
É que as pessoas são mais símiles de quanto a maioria supõe. Mesmos desejos, mesmas necessidades, mesmos sentimentos. Soment e expressos em sutís padrões mais ou menos diversos.
É assim que aprendemos que somos iguais em nossas diferenças.
Viajar, traz a percepção da dimensão humana no outro.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Finitude e ética

Véspera de fim de ano.
Ano complexo, difícil.
Me fez pensar sobre o tempo que passa e que vai se esvaindo sem que, na nossa sofreguidão pela sobrevivência, tenhamos consciência real do que ele represente e de como o estamos usando.
Ultimamente tenho assistido como profissional muitos casos de terminalidade e uma infinidade de condutas, umas mais, outras menos éticas.
Vejo também um tabú evidente sobre a aceitação dos limites, da racionalidade terapêutica, da experiência da morte como evento natural, incluído na essência da própria vida.
Vejo condutas cujo único objetivo é a satisfação da ansiedade resultante da impotência do cuidador diante de seu limite, diante da sua própria finitude refletida na morte do outro.
É o "fazer tudo", indiscriminadamente, sem sequer ser colocada a pergunta se este tudo faz sentido, se é o melhor, ou mesmo se foi uma escolha do ser humano que temos sob nossos cuidados.
Esta é uma pergunta fundamental e neglicenciada. Varrida para debaixo do tapete como se a simples menção de escolher como morrer trouxesse magicamente influxos negativos.
Mas é numa hora boa que teríamos que deixar claro o que queremos para nós mesmos.
Você, que me lê, já pensou nisso? Já pensou se queria permanecer comatoso, desconectado do ambiente, alimentado por sondas? Se queria, diante de uma doença grave e sem prognóstico, ter a opção de deixá-la evoluir sem medidas heróicas? Se queria ter uma conduta invasiva e dolorosa, mesmo que esta não aumentasse a sua sobrevivência por mais de quinze dias objetivamente? Se queria manter sua consciência ou ser sedado além da dor? Se queria "dormir" ou permanecer vigil até o fim, sem dor apenas?
Era hora que a sociedade começasse a se ocupar do morrer. E falasse sobre isto nas famílias. Deixasse estes temas bem definidos e claros.
Não é fácil para um profissional ou para um familiar tomar decisões sobre terminalidade sem ter estas vontades expressas e até registradas, se possível.
Como médicos, é nosso dever ético nos abstermos de futilidades terapêuticas e evitar ao máximo a distanásia (que assistimos todos os dias em nossos hospitais). É uma praga moderna morrer mal, entubados, sondados e cheios de antibióticos que não melhoram o prognóstico, só a nossa angústia de sermos humanos. E, sejamos claros, é a nossa, não a de nosso paciente que é o sujeito final de nossos esforços.
O ano acaba. Assim como fazemos planos para o próximo ano, esperando que ele seja o melhor possível apesar das dificuldades e fechamos as contas do que foi bom e ruim durante este tempo que passou, quem sabe esta noção de finitude de um tempo nos ajude a refletir.
Nosso tempo aqui é breve. Façamos com que ele seja o melhor possível.
Afinal, morreremos todos. Só precisamos definir como.
Eu quero fazer só o melhor possível.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

A tempestade veio com ventos fortes sacudindo os galhos das árvores lá fora.
Cinza escura, com uma pitada de marrom da poeira viajante em suspensão.
Levou a luz por um momento. Mas em outros acendeu o céu como numa festa.
Despencou sobre as cabeças, de repente. Rumorosa e inconsequente, passional e exagerada, como a juventude e como quase tudo que começa.
Devagar, o ímpeto da chuva fresca, de início impetuosa,
 foi amainando-se até chegar ao acalanto doce do gotejar útil.
Som elegante e íntimo que umedece a terra e a fertiliza.
É este rumor que ouço agora, e que faz minha mente arrastar minha alma para uma dança sob a água.

A noite veio.
Amanhã talvez venha o sol...
ou não.



domingo, 23 de agosto de 2015

A nota Lá.

Anota lá,
que falta Lá
no meu piano.

A corda partiu.
Assim sem razão aparente,
só para ser discordante
e antipática.

Sem Lá, o som perde o horizonte,
perde o brilho, perde o tom.

Pois é Lá que afina,
o som do Universo,
seja em verso
seja em prosa.

O Lá não está mais onde deveria estar.
O meu piano jaz sem Lá,
sem valsa, sem samba,
sem merengue ou serenata.
Jaz sem Jazz.
Lá falta Lá.

Triste, sem a nota, sem a corda
sem acordo, sem vergonha,
desabafa, e faz dó.